Consumo de ovo e risco CDV II

27 de fevereiro de 2020 às 19:26

Comentário pela Profa. Dra. Márcia Maria Godoy Gowdak (INCOR/SP)

Vários estudos têm mostrado que o colesterol dietético tem efeito mínimo sobre a concentração plasmática dessa lipoproteína. A explicação fisiológica para esse fato é a limitação da absorção do colesterol no intestino. Do total de colesterol absorvido, 75% são provenientes da síntese endógena e 25% da dieta. A gordura saturada, por outro lado, não tem sua absorção limitada, tendo um impacto maior no aumento do colesterol plasmático por aumentar a formação de LDL no plasma e diminuir o seu turnover.

Por muitos anos acreditou-se que o ovo por ser rico em colesterol teria uma influência muito importante no colesterol plasmático. O fato é que vários estudos publicados nos últimos 10 anos mostraram que o ovo frito na manteiga seria o grande problema, tendo em vista que o ovo tem cerca de 40% de gordura saturada e 60% de gordura insaturada. A manteiga e o bacon que geralmente o acompanha seriam os grandes vilões por serem ricos em gordura saturada. Estudo liderado pelo Prof. Victor Zhong de Chicago e publicado na prestigiosa revista JAMA em março de 2019 soma-se à vasta literatura sobre o tema, cujos principais achados divergem de estudos anteriores e serão aqui brevemente comentados.

Nesse estudo, os investigadores mostraram associação positiva do ovo e colesterol com risco cardiovascular. O resultado obtido por 6 coortes, totalizando a participação de 29.615 indivíduos adultos. Entre as coortes avaliadas no estudo, tivemos a participação de: Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC) Study, Coronary Artery Risk Development in Young Adults (CARDIA) Study, Framingham Heart Study (FHS), Framingham Offspring Study (FOS), Jackson Heart Study (JHS) e Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis (MESA). Os pacientes foram seguidos por 17 anos e meio.

Os investigadores identificaram que o risco de desenvolvimento e morte por doença cardiovascular, incluindo doença do coração, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca aumentou nas pessoas que regularmente consumiam colesterol e ovo. Para cada 300mg de colesterol de consumo de colesterol, o risco de doença cardiovascular aumentou em 17% e a mortalidade em 18%. O consumo de ovo não foi associado com doença cardiovascular e mortalidade após ajuste do consumo total de colesterol. O aumento de meia unidade de ovo diariamente aumentou o risco de doença cardiovascular e mortalidade inclusive nos indivíduos que consumiam uma dieta saudável, do tipo dieta do mediterrâneo ou DASH.

Alguns estudos haviam mostrado a falta de relação direta entre o consumo de ovo e o colesterol plasmático. O estudo Nurses´ Health and Health Professionals’ Studies com mais de 100 mil profissionais mostrou um efeito nulo do consumo de ovo no risco cardiovascular dos participantes. Este resultado foi replicado por Rong Y et al. em metanálise que reuniu mais de 3 milhões de participantes. O maior consumo de ovo não foi associado com o aumento do risco de doença arterial coronária ou acidente vascular cerebral. Recentemente Chenxi Qin e cols. avaliaram a relação entre o consumo de ovo e risco cardiovascular em cerca de 500.000 participantes chineses. Neste estudo, o consumo de até 1 ovo diariamente foi associado com menor risco de doença cardiovascular, independente da presença de outros fatores de risco.

Há que se destacar que no estudo de Zhong algumas limitações apontadas pelos autores podem ajudar a entender a divergência com investigações prévias.  As diferentes metodologias relacionadas a quantificação do consumo de alimentos utilizadas nos diversos estudos que compõem esta metanálise merece consideração. Outra avaliação crítica do artigo em questão refere-se a forma de avaliação do consumo dietético, pois esta foi realizada no início do estudo com a média de seguimento de 17 anos. Sabe-se que o consumo da população muda ao longo desse tempo, mudança pautada por pesquisas que direcionam os guias alimentares. É difícil também separar a forte correlação entre consumo de ovo e hábitos de vida não saudáveis, tais como, sobrepeso, obesidade, elevado consumo de carnes e baixo consumo de frutas. Os fatores de confusão acontecem quando os hábitos estão muito correlacionados, sendo uma tarefa muito complicada tentar separá-los.

Na conclusão, os autores ressaltam a importância da consideração desse resultado nas diretrizes. Pela avaliação dos achados no estudo, limitar o consumo de colesterol dos norte-americanos em 300mg/dia parece ser razoável. Importante levarmos em consideração que se trata de mais um estudo de associação entre o consumo de colesterol ou ovo com risco cardiovascular e mortalidade, não sendo possível se estabelecer relação de casualidade.