Associations between blood pressure across adulthood and late-life brain structure and pathology in the neuroscience substudy of the 1946 British birth cohort (Insight 46): an epidemiological study

27 de fevereiro de 2020 às 19:22

Comentário pelo Prof. Dr. Rodrigo Bazan, neurologista (UNESP/Botucatu)

Este é um interessante e inovador trabalho de uma coorte Britânica iniciada em 1946, onde Christopher Lane e colaboradores1 avaliam se os níveis e alterações da pressão arterial durante a vida adulta foram associadas com alterações na estrutura cerebral tardia e aspectos cognitivos. A hipertensão, principalmente na meia-idade, está associada a riso de demência na idade avançada e com maior risco de doença de Alzheimer clinicamente diagnosticada. Os autores revisaram trabalhos anteriores sobre pressão arterial e cérebro saudável com foco em hiperintensidades da substância branca, volumes cerebrais e patologia amilóide cerebral. A hipertensão (HA) também tem sido associada a menores volumes de tecido cerebral, com associações mais consistentes de HA na meia-idade ao invés idade mais avançada. A associação entre pressão arterial e doença amilóide é menos clara. Muitos estudos de tamanho amostral pequeno, e característica metodológica transversal (cross-sectional) encontraram associações positivas entre pressão alta e carga amilóide elevada. Porém, considerando-se duas grandes coortes de pacientes, “the Atherosclerosis risk in communities” e “the Mayo Clinic Study of Aging”, não observaram associação entre hipertensão na meia-idade e carga amilóide cerebral tardia. A meia-idade é geralmente definida como um período entre 40 e 65 anos.

No presente estudo os participantes eram do “Insight 46”, um sub-estudo de neurociências de uma coorte longitudinal de pacientes em andamento, sendo essa coorte de nascimentos que inicialmente incluía 5362 indivíduos nascidos na Grã-Bretanha em 1946. Os participantes de 69 a 71 anos receberam volumetria T1 e FLAIR no exame de Ressonância magnética encéfalo, imagem PET-amilóide florbetapir e avaliação cognitiva na University College London (Londres, Reino Unido). Todos os participantes estavam livres de demência. As medidas da pressão arterial foram coletadas nas idades 36, 43, 53, 60-64 e 69 anos. Também foram calculadas as variáveis de alteração da pressão arterial entre as idades. As medidas de desfecho primário foram à avaliação do volume e hiperintensidade da substancia branca cerebral (VHSBC) quantificado a partir da ressonância magnética multimodal usando um método automatizado, positividade ou negatividade do amilóide-β usando uma abordagem padronizada da razão de valor de captação, volumes do cérebro inteiro e do hipocampo quantificado a partir da ressonância magnética 3D-T1 e um escore cognitivo composto – o composto cognitivo pré-clínico de Alzheimer (CCPCA).  Foram observadas associações entre pressão arterial e alterações da pressão arterial entre 36 e 43, 53, 60-64 e 69 anos de idade com (VHSBC) usando modelos lineares generalizados com distribuição gama e função log, status β-amilóide por regressão logística, volume do cérebro inteiro e volumes do hipocampo através do modelo de regressão linear e pontuação do (CCPCA) usando regressão linear, com ajuste para possíveis fatores de confusão.

Entre 28 de maio de 2015 e 10 de janeiro de 2018, 502 indivíduos foram avaliados como parte do Insight 46. Destes 465 participantes (238 [51%] homens com idade média de 70,7 anos [DP 0,7]; 83 indivíduos [18%] com amilóide-β-positivo) foram incluídos nas análises de imagem. Pressão arterial sistólica mais alta (PAS) e pressão arterial diastólica (PAD) aos 53 anos e maiores aumentos na PAS e PAD entre 43 e 53 anos foram associados positivamente ao (VHSBC) entre 69 e 71 anos de idade. PAD mais alta aos 43 anos de idade associou-se a menor volume de cérebro inteiro aos 69–71 anos de idade (–6 · 9 mL por 10 mm Hg PAD maior, –11,9 a -1,9, p = 0,0068), assim como aumentos maiores na PAD entre 36 e 43 anos de idade. Maiores aumentos na PAS entre 36 e 43 anos de idade foram associados a volumes hipocampais menores aos 69–71 anos de idade (–0,03 mL por 1 alteração no DP, –0,06 a –0,001, p = 0,43). Nem pressão arterial absoluta nem mudanças na PA foram preditores de nem alteração no status β-amilóide ou na pontuação da (CCPCA) entre 69 e 71 anos de idade.

A pressão alta e crescente do início da idade adulta até a meia-idade parece estar associada a aumento de (VHSBC) e menores volumes cerebrais entre 69 e 71 anos de idade. Não se encontrou evidências de que a pressão arterial tenha afetado a cognição ou carga β-amilóide cerebral nessa faixa etária. O monitoramento e intervenções da pressão arterial podem precisar ter um início por volta dos 40 anos de idade para maximizar o envelhecimento cerebral saudável. Esse estudo apresenta-se como sendo um dos primeiros trabalhos prospectivos que examina a associação entre pressão arterial nos múltiplos pontos no tempo, alterações da pressão arterial e patologias e volumes cerebrais medidos sistematicamente em uma coorte de recém-nascidos em que todos os participantes têm idade quase idêntica. O desenho do estudo oferece uma oportunidade única de examinar as alterações da pressão arterial em períodos bem definidos da vida desde o início da idade adulta até a meia-idade e explorar seus efeitos sobre as volumes e doenças cerebrais. O uso de dados desta coorte, cujos participantes foram avaliados na última visita do estudo por um período de dois anos, permite o exame de associações sem o efeito confundidor da idade, que está fortemente associada a todos essas medidas. Os autores acham que a meia-idade precoce é um período particularmente sensível em que a pressão arterial elevada e aumentos rápidos da PA estão associados ao desenvolvimento de hiperintensidade da substância branca e subsequente menores volumes cerebrais. Não foram observadas associações entre pressão arterial ou alteração da pressão arterial com carga amilóide cerebral no processo de envelhecimento, fornecendo evidências adicionais de que associações observadas entre a hipertensão na meia-idade e demência do idoso não seja mediada por vias amiloidogênicas.

Como conclusão esses achados sugerem que medidas da PA de rotina e seriadas devem serem iniciadas mais precocemente do que tipicamente é indicado na literatura (por volta dos 40 anos), e decisões para início de tratamento devem ser necessariamente baseadas não somente nos valores absolutos da PA mas também nas mudanças longitudinais desta ao longo da vida.

Referência

1Lane CABarnes JNicholas JMSudre CHCash DMParker TDMalone IBLu KJames SNKeshavan AMurray-Smith HWong ABuchanan SMKeuss SEGordon ECoath WBarnes ADickson JModat MThomas DCrutch SJHardy RRichards MFox NCSchott JM. Associations between blood pressure across adulthood and late-life brain structure and pathology in the neuroscience substudy of the 1946 British birth cohort (Insight 46): an epidemiological study. Lancet Neurol. 2019 Oct;18(10):942-952